Disciplina

Neurociência e transtornos específicos de aprendizagem

Não é nova a preocupação com os estudantes que não aprendem. A maior parte das dificuldades de aprendizagem pode ser atribuída a deficiências intelectuais, acuidade visual ou auditiva sem correção, transtornos mentais ou neurológicos, condições psicossociais desfavoráveis ou problemas no ensino. No entanto, há estudantes que não se enquadram em nenhuma dessas situações e, apesar disso, não conseguem aprender.

Nesta disciplina, você vai estudar um tipo de transtorno do neurodesenvolvimento: os transtornos específicos de aprendizagem, que podem se manifestar com prejuízos na leitura, na expressão escrita ou na matemática. Esses prejuízos podem se apresentar isolada ou conjuntamente e não podem ser explicados pelos fatores apresentados. Os avanços nas neurociências têm auxiliado o entendimento desse quadro e contribuído para a busca de intervenções no ensino que possam promover a aprendizagem dos sujeitos com transtorno específico de aprendizagem, contribuindo para a melhoria da sua qualidade de vida.

ícone de folha com checklist ícone de folha com checklist

Objetivos de aprendizagem

Objetivos de aprendizagem

  • Identificar e conceituar os transtornos específicos de aprendizagem.
  • Relacionar aspectos dos transtornos do neurodesenvolvimento que prejudicam as habilidades necessárias para a aprendizagem.
  • Desenvolver estratégias de intervenção para promover a aprendizagem de crianças com transtorno específico de aprendizagem (dislexia, disgrafia, discalculia, dificuldade de compreensão leitora).
  • Articular teoria e prática a partir de experiências profissionais de destaque na área do curso.
curva encerrando a sessão

A Professora

Tania Beatriz Iwaszko Marques

Graduada em psicologia e em licenciatura em psicologia (1983 e 1989) e mestre (1989) e doutora (2005) em educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente na Universidade Luterana do Brasil de 1986 a 2000. De 1991 a 2020, atuou na Faculdade de Educação da UFRGS, onde, além de docente e orientadora na graduação e na pós-graduação, foi: coordenadora ou vice-coordenadora de cursos de especialização (psicopedagogia e tecnologias da informação e comunicação; educação para a diversidade; Proeja Indígena; Proeja); coordenadora da comissão de graduação do curso de pedagogia; e vice-coordenadora do programa de pós-graduação em educação. Foi coordenadora pedagógica e atualmente é palestrante do Instituto Ciência e Saber. É conteudista da Sagah, da Verbo Educacional e da Faculdade Católica Paulista. Participa de duas pesquisas, como sujeito: Projeto ELSA (Estudo Longitudinal sobre a Saúde do Adulto, desde 2008) e Nutrinet Brasil (desde 2020). Apresenta o Programa Saúde, Cultura e Muito Mais na Rádio Inter de Todos.

A Influenciadora

Hosana Alves Gonçalves

Psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Mestre em Psicologia (Cognição Humana, PPGP, PUCRS) e Doutora em Psicologia (Cognição Humana, PPGP, PUCRS) no Grupo Neuropsicologia Clínica e Experimental-Escolar (GNCE), com período de doutoramento sanduíche na Universidade de Salamanca (Espanha). Autora do livro Como escrever um laudo neuropsicológico e do Teste de Avaliação da Compreensão Leitora de textos Expositivos, da editora Pearson. Membro da equipe técnica do Programa Tempo de Aprender do Ministério da Educação (MEC). Autora de diversos artigos científicos nacionais e internacionais, capítulos de livros e testes neuropsicologicos. Professora na Faculdade de Psicologia da IENH. Professora convidada em diversos cursos de especialização do Brasil. Coordenadora do Curso de Especialização em Neuropsicologia na empresa Inclusão Eficiente Sul. Sócia fundadora da Conectare NeuroPsi - atendimento, formação e conexões em neuropsicologia onde atua como psicóloga e neuropsicóloga clínica.

Aula 1

Introdução aos transtornos específicos de aprendizagem

Seja bem-vindo à disciplina de Neurociência e transtornos específicos de aprendizagem, do curso Neurociência e aprendizagem. Você já deve ter conhecimento das diversas dificuldades que envolvem a educação no Brasil: escolas sem estrutura adequada ao ensino requerido no século XXI; escassa formação continuada de professores; falta de transporte escolar; e últimas posições nas avaliações internacionais das quais o Brasil, para citar algumas das dificuldades enfrentadas pela educação no nosso país.

No entanto, existe um grupo de crianças que não aprende mesmo se tiver as melhores condições de ensino, condições socioeconômicas favoráveis, nível de inteligência considerado adequado, ausência de problemas sensoriais não corrigidos e de transtornos mentais ou neurológicos.

Trata-se de crianças que sofrem de um tipo de transtorno do neurodesenvolvimento, os transtornos específicos de aprendizagem, que não lhes permitem aprender, mesmo que não se enquadrem nas várias condições mencionadas.

Nesta imagem aparecem crianças de diferentes raças sorrindo.

Nesta disciplina, você vai estudar os transtornos específicos de aprendizagem, que podem se manifestar com prejuízo na leitura, na expressão escrita ou na matemática e podem se apresentar isolada ou conjuntamente. Os avanços nas neurociências estão possibilitando, cada vez mais, o entendimento desse quadro, o que permite a construção de intervenções que promovam a aprendizagem desses sujeitos. Ainda que essa condição permaneça na vida adulta, o sujeito pode descobrir formas de lidar com ela e ter uma boa qualidade de vida. Você vai conhecer os aspectos gerais dos transtornos específicos de aprendizagem, bem como cada um dos prejuízos específicos e suas causas, prevalência e intervenção.

Uma referência básica na disciplina é o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014), conhecido como DSM, a partir da sigla em inglês para Diagnostic and statistical manual of mental disorders. A autoria do Manual é da Associação Americana de Psiquiatria (APA, American Psychiatric Association). Atualmente, o Manual se encontra na quinta edição, sendo chamado de DSM-5. Esse documento padroniza os diagnósticos para os transtornos mentais e, com a Classificação Internacional de Doenças (CID), da Organização Mundial da Saúde, dá as diretrizes diagnósticas para o sistema de saúde no Brasil.

Nesta primeira aula, você vai conferir uma introdução aos transtornos específicos da aprendizagem, com foco em: relação com os transtornos do neurodesenvolvimento; tipos; etiologia; prevalência; critérios diagnósticos segundo o DSM-5; comorbidades associadas; e diagnóstico diferencial. Na sequência, você vai assistir ao vídeo do influenciador.

debate debate

Ampliando o debate

A psicóloga e neuropsicóloga Hosana Alves Gonçalves, especialista em transtornos do neurodesenvolvimento, fala sobre a importância de fazer o correto diagnóstico diante de uma queixa de dificuldades de aprendizagem. Ela salienta que é importante observar a diferença entre dificuldade de aprendizagem e transtorno de aprendizagem.

Assista ao vídeo e descubra como realizar o diagnóstico corretamente.

Hosana Alves Gonçalves

A Influenciadora

Conforme você assistiu no vídeo da influenciadora, uma avaliação minuciosa deve ser realizada quando se suspeita do diagnóstico de transtorno específico de aprendizagem. Embora todas as ferramentas utilizadas sejam importantes para o fechamento do diagnóstico, a entrevista de anamnese é imprescindível para conhecer a história do paciente, uma vez que permite buscar elementos que outros materiais não oferecem, ajudando a diferenciar o transtorno de quadros em que também há dificuldades de aprendizagem. Entre tantas outras informações, a entrevista de anamnese permite conhecer o histórico do paciente e verificar se há casos semelhantes na família, já que é comum a história familiar de transtorno específico de aprendizagem. Além disso, ela permite saber o momento do surgimento das dificuldades e se a criança esteve exposta a fatores de risco durante a gravidez ou os seus primeiros meses ou anos de vida. A entrevista de anamnese fornece informações sobre o grau em que as dificuldades da criança afetam o seu dia a dia e o seu desempenho escolar. Com ela, é possível conhecer as condições de saúde e de escolaridade às quais a criança esteve exposta, a fim de compreender se as suas dificuldades se devem ou não a problemas de saúde ou de escolarização.

A partir do diagnóstico, pode-se traçar a intervenção, que é individualizada. Por isso, é muito importante aprender a identificar o quadro de transtorno específico de aprendizagem, diferenciando-o de outros em que pode haver alguns sintomas semelhantes. Ao longo da disciplina, você vai saber mais sobre as características desse quadro.

Saiba mais

Alguns indícios de transtorno específico de aprendizagem são: o desempenho escolar da criança não condiz com a sua inteligência que, a princípio, parece ser normal; a condição só foi verificada pela família e pela escola no início do ensino fundamental; os colegas da mesma idade já sabem ler, escrever, contar, somar e subtrair e a criança ainda está muito longe de conseguir.

Nesses casos, é importante verificar se se trata de um transtorno específico de aprendizagem, que, segundo o DSM-5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014), é um dos quadros classificados como transtornos do neurodesenvolvimento, que se caracterizam por iniciar no período de desenvolvimento.

Clique no botão abaixo para acessar o e-book do DSM-5 e saber mais sobre o assunto.

Veja aqui

Com relação à etiologia do transtorno específico de aprendizagem, trata-se de um transtorno do neurodesenvolvimento com origem biológica. Essa “origem biológica inclui uma interação de fatores genéticos, epigenéticos e ambientais que influenciam a capacidade do cérebro para perceber ou processar informações verbais ou não verbais com eficiência e exatidão” (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, seção 2, p. 2).


De acordo com Ohlweiler, um fato a se considerar na etiologia é que “qualquer fator que possa alterar o desenvolvimento cerebral do feto facilita o surgimento de um quadro de transtorno da aprendizagem”.

Na videoaula a seguir, conheça um pouco mais sobre os aspectos gerais do transtorno específico de aprendizagem e sua relação com os transtornos do neurodesenvolvimento.

A professora comenta

Introdução aos transtornos específicos de aprendizagem

Como você aprendeu, o transtorno específico de aprendizagem é um dos transtornos do neurodesenvolvimento, caracterizado por iniciar no período de desenvolvimento.

Nesta videoaula, você vai conhecer a origem, as características e as formas de se identificar os transtornos específicos de aprendizagem.

Como você pôde observar na videoaula, a prevalência do transtorno de aprendizagem entre crianças em idade escolar é de 5 a 15%, e entre adultos, de 4%. É mais comum no sexo masculino, com proporção de 2:1 ou 3:1, conforme diferentes estudos. O transtorno específico de aprendizagem tem a seguinte subdivisão:

  • Com prejuízo na leitura
  • Com prejuízo na expressão escrita
  • Com prejuízo na matemática

Segundo o DSM-5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, seção 2, p. 2), existem quatro critérios diagnósticos para o transtorno específico de aprendizagem.

Interativo

Os seis sintomas do transtorno não serão apresentados agora, mas sim em cada um dos transtornos específicos:

  • Prejuízo na leitura: partes 1 e 2 da aula 2
  • Prejuízo na expressão escrita: partes 1 e 2 da aula 3
  • Prejuízo na matemática: partes 1 e 2 da aula 4

Para o diagnóstico de transtorno específico de aprendizagem, os quatro critérios precisam ser atendidos. Contudo, para o critério A, basta a presença de um dos seis sintomas.


“A emergência do campo estava ligada a uma necessidade de entender diferenças individuais em aprendizagem e em desempenho entre crianças e adultos que apresentam déficits específicos na linguagem falada ou escrita, enquanto mantêm um funcionamento geral em nível adaptativo” (FLETCHER et al., 2009, p. 24).

Conforme você assistiu na videoaula, no que se refere à gravidade, o transtorno específico de aprendizagem pode ser manifestar de forma leve, moderada ou grave. Agora, você vai saber um pouco mais sobre esses níveis. No quadro leve, com alguma ajuda especializada, o sujeito consegue realizar compensações e funcionar bem. Já no quadro moderado, ele precisa de muito auxílio para realizar as suas atividades de modo apenas razoável. Por fim, no quadro grave, mesmo com muito auxílio, o sujeito tem grandes dificuldades para executar as suas tarefas.

Entre os fatores de risco, estão os ambientais, como prematuridade, baixo peso ao nascer e exposição à nicotina, e os fatores genéticos e fisiológicos. As pesquisas indicam haver história familiar de dificuldades.

As comorbidades mais frequentes no transtorno específico de aprendizagem são outros transtornos do neurodesenvolvimento, como transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, e outros transtornos mentais, como transtornos de ansiedade, transtorno depressivo e transtorno bipolar.

Glossário

Morbidade: estado patológico, doença.

Comorbidade: presença de duas ou mais patologias na mesma pessoa, ao mesmo tempo.

Há vários outros quadros em que as crianças apresentam dificuldades no desempenho escolar. Para o diagnóstico diferencial, é necessário descartar os seguintes quadros:

  • Variações normais no desempenho acadêmico
  • Deficiência intelectual (transtorno do desenvolvimento intelectual)
  • Dificuldades de aprendizagem devidas a problemas neurológicos ou sensoriais
  • Transtornos neurocognitivos
  • Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade
  • Transtornos psicóticos
ícone de microfone ícone de microfone

Podcast

Diagnóstico diferencial: variações normais no desempenho acadêmico

No podcast a seguir, será discutido um dos tópicos do diagnóstico diferencial: as variações no desempenho acadêmico devidas aos fatores externos. Além dos outros quadros que devem ser descartados no diagnóstico diferencial, as dificuldades causadas pela escolarização são bastante frequentes na realidade educacional.

A seguir, confira uma dica interessante para conhecer um pouco mais esse assunto.

ícone de link ícone de link

Veja essa dica

Papel da escola nas dificuldades de aprendizagem

Para saber mais sobre os problemas no ensino, assista ao episódio “Escola – mais laboratório e menos auditório”, com o Prof. Fernando Becker, no TEDxUnisinos. O palestrante enfatiza que a escola continua realizando um ensino que não leva em consideração o que as pesquisas evidenciaram sobre a aprendizagem do ser humano.

Veja aqui

curva encerrando a sessão

ícone de folha com uma lupa ícone de folha com uma lupa

Infográfico

No Infográfico a seguir, conheça o modelo RTI (resposta à intervenção para escolares com dificuldade de leitura e escrita), bastante utilizado nos Estados Unidos (MACHADO; ALMEIDA, 2014).

A imagem se refere a um infográfico, cujo título é o Baixo Rendimento escolar – RTI. Do lado direito aparece a imagem de uma professora ensinando uma criança que está com as mãos na cabeça com a aparência de quem não está entendendo. Ao lado da imagem está a frase O que é RTI? Trata-se da identificação e da intervenção precoce de alunos em risco de desenvolver problemas de aprendizagem e da identificação precoce dos transtornos da aprendizagem. Abaixo está descrito como e realizado esse diagnóstico. Por meio do rastreio universal de problemas escolares e comportamentais em todos os estudantes. Os resultados identificam: Crianças e alunos que não estão aprendendo como seus colegas. Realizam-se dois tipos de intervenções escolares consistentes. Individual: Crianças que superam dificuldades iniciais possuem provável dificuldade de aprendizagem e não há necessidade de intervenção especializada. Pequenos grupos: Crianças que mostram dificuldades persistentes possuem provável transtorno de aprendizagem e há necessidade de intervenção especializada. Ambas as situações exigem monitoramento. Embaixo encontra-se o texto dizendo que esta abordagem tem se mostrado muito eficaz na triagem, no diagnóstico das dificuldades (Das) e dos transtornos de aprendizagem (TAs) bem como tem contribuído para a melhora do ensino.

Nesta primeira aula, você conferiu uma introdução aos transtornos específicos de aprendizagem. Além disso, soube mais sobre o diagnóstico pela psicóloga e neuropsicóloga Hosana Alves Gonçalves. Por fim, você conheceu um pouco mais as variações do desempenho acadêmico devidas a fatores externos.

Dica de leitura

Para entender por que alguém não aprende, é necessário primeiro entender como se aprende. De forma clara e leve, os professores Ramon Cosenza e Leonor Guerra, ambos médicos e doutores em ciências, trazem resultados das pesquisas em neurociências, mostrando o que ocorre no cérebro enquanto se aprende. Convido você a ler este livro, escrito especialmente para não médicos que têm interesse em conhecer o cérebro em ação e a transformação ao aprender.

Para ler este livro, busque o link nas leituras da disciplina, dentro do Eixo na Plataforma A.

LIVRO

Neurociência e educação: como o cérebro aprende

Referências

Acesse as referências e os créditos desta disciplina clicando no botão a seguir.

Veja aqui

Aula 2

Transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na leitura

Nesta segunda aula da disciplina Neurociência e transtornos específicos de aprendizagem, você vai estudar o transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na leitura, com foco nos seguintes tópicos:

  • Critérios diagnósticos
  • CID
  • Prevalência
  • Áreas envolvidas na leitura
  • Intervenções

Os transtornos específicos de aprendizagem com prejuízo na leitura são identificados pelos Sintomas 1 e 2 do critério de diagnóstico A, que, segundo a American Psychiatric Association (2014, seção 2, p. 2), são:

Interativo

Assista à videoaula a seguir para saber um pouco mais sobre esse tema.

A professora comenta

Transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na leitura

Na aula anterior, você aprendeu que os transtornos específicos de aprendizagem devem obedecer a quatro critérios.

Nesta videoaula, você vai descobrir que, no diagnóstico do critério A, basta que um dos sintomas se apresente.

Na videoaula, você viu como identificar um transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na leitura, que afeta cerca de 5 a 15% das crianças em idade escolar, sendo o prejuízo sobre o qual há mais pesquisas.

Na realização do diagnóstico, é importante identificar o número do código da Classificação Internacional de Doenças (CID) que identifica o transtorno. Convém ressaltar que, na composição do número, a parte fora dos parênteses refere-se à CID-9, ao passo que a parte entre parênteses se refere à CID-10, que são diferentes versões do código.

O código que nos interessa é o CID 315.00 (F81.0), que se refere ao transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na leitura, cujos sintomas são dificuldade na:

  • Precisão da leitura de palavras
  • Velocidade ou fluência da leitura
  • Compreensão da leitura

Embora a dislexia não seja sinônimo de transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na leitura, muitas vezes é utilizada como se fosse. Trata-se de um termo muito utilizado e encontrado na literatura, portanto é importante conhecer o que a American Psychiatric Association (2014, seção 2, p. 2) diz sobre essa expressão, já que, em relação ao diagnóstico, estamos seguindo o manual dessa associação.


“Dislexia é um termo alternativo usado em referência a um padrão de dificuldades de aprendizagem caracterizado por problemas no reconhecimento preciso ou fluente de palavras, problemas de decodificação e dificuldades de ortografia. Se o termo dislexia for usado para especificar esse padrão particular de dificuldades, é importante também especificar quaisquer dificuldades adicionais que estejam presentes, tais como dificuldades na compreensão da leitura ou no raciocínio matemático” (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, seção 2, p. 2).

Segundo Rotta e Pedroso, a dislexia já foi chamada de cegueira verbal, de modo que foram os oftalmologistas que ajudaram a identificar que o problema não está nos olhos, mas sim nas áreas do cérebro responsáveis pela linguagem. Os autores mencionam que “a leitura lenta, trabalhosa e individual da palavra impede a habilidade da criança de compreender o que leu. Essa situação ocorre mesmo quando a compreensão da língua falada for normal”. A prevalência da dislexia é de 5 a 15% em crianças em idade escolar; não está definida a prevalência por gênero.

Leitura e cérebro

A seguir, confira algumas imagens do cérebro relacionadas com a leitura.

A imagem, cuja fonte são os autores Rotta e Pedroso (In ROTTA; OHLWEILER; RIESGO, 2016, p. 139). É composta por várias figuras do cérebro humano, em 3D, relacionadas à leitura. Na primeira imagem podem ser vistas as áreas cerebrais envolvidas na leitura. Além do cerebelo, estão envolvidos os lobosfrontal, temporal, parietal e occipital.  Na segunda imagem, pode-se visualizar a ativação dessas áreas em um leitor habitual e em um leitor disléxico. A diferença na ativação das várias áreas é facilmente visualizada pela intensidade das cores. Ativação cortical na ressonância magnética durante a leitura de um leitor habitual (A) e de um leitor disléxico (B). Na terceira imagem é possível identificar as diferenças morfológicas do plano temporal no leitor normal e no disléxico (A). Enquanto no leitor habitual encontra-se a assimetria habitual, no disléxico encontra-se a simetria (B).
ícone de link ícone de link

Veja essa dica

Imagem 3D do sistema nervoso central

Conheça a imagem 3D do sistema nervoso central.

curva encerrando a sessão

Que tal conhecer os sistemas nervosos central e periférico para compreender as suas estruturas e complexidades?

Saiba mais

Sistemas nervosos central e periférico

Para entender a estrutura do sistema nervoso humano, veja o esquema a seguir:

No Saiba mais há uma imagem do sistema nervoso, que se divide em Central e dentro dele há o encéfalo, que contém os hemisférios cerebrais, diencéfalo, cerebelo, e tronco encefálico e medula. O sistema nervoso periférico é composto pelos nervos cranianos e nervos raquidianos.

A riqueza das imagens nos permite entender um pouco mais a estrutura cerebral envolvida na leitura. A leitura e a escrita são atividades complexas que envolvem diversas áreas do sistema nervoso central. Em comparação com a linguagem, a escrita e a leitura são muito recentes na humanidade. Da mesma forma, elas são muito tardias com relação à linguagem no desenvolvimento da criança. Alguns autores explicam que a grande quantidade de casos de transtornos relacionadas com a leitura e a escrita se deve a essa novidade no cérebro humano.

ícone de microfone ícone de microfone

Podcast

Média de idade da aprendizagem da leitura

Para trabalhar com os prejuízos na leitura, este podcast lhe desafia a pensar sobre a sua própria aprendizagem.

Conforme você ouviu no podcast, nossa memória não é um bom parâmetro para saber como se dá a aprendizagem da leitura e da escrita. Portanto, para que você saiba como esse processo ocorre (algo muito útil para a realização das intervenções), é preciso estudá-lo.

Quanto às intervenções para o transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na leitura, existe uma série de recomendações, conforme a área do profissional, já que o atendimento aos transtornos específicos de aprendizagem costuma ser interdisciplinar ou multidisciplinar.

Glossário

Disciplinaridade: organização do conhecimento por áreas.

Multidisciplinaridade: união de várias disciplinas cooperando para um estudo em comum.

Interdisciplinaridade: troca de saberes entre as disciplinas.

Segundo Rotta e Pedroso, o tratamento é feito pela reeducação da linguagem escrita.

ícone de folha com uma lupa ícone de folha com uma lupa

Infográfico

No Infográfico a seguir, confira uma sugestão de intervenções relevantes para a organização do trabalho pedagógico diante dos distúrbios e das dificuldades de aprendizagem.

A imagem é um infográfico que contém uma sugestão de intervenções relevantes para a organização do trabalho pedagógico diante dos distúrbios e dificuldades de aprendizagem, que considera o papel do professor relevante para compreender de forma clara e objetiva alguns aspectos fundamentais para a organização do trabalho ocorra de forma eficiente e profícua. Ao lado da imagem de uma professora em sala de aula fazendo pergunta aos alunos está o texto referente ao Foco na aprendizagem. Ao lado da imagem contendo quatro sinais de interrogação, feitos de papel, sobre uma folha de papel, está o texto referente a avaliação. Ao lado da imagem de três mulheres dando as mãos ao centro da mesa, sobre a tela de um computador, encontra-se o texto sobre o Re planejamento. Ao lado da imagem onde existem várias crianças abraçando a professora encontra-se o texto sobre afetividade. Logo abaixo constam outros aspectos a serem considerados, que são: inclusão, respeito às diferenças e aprendizagem de todos. Ao final, uma caixa contendo o seguinte texto: Diante dessas considerações fica evidente que é por meio da atuação do docente organizada e adequada, fundamentada a partir dos conhecimentos sobre a inclusão, que esses estudantes irão alcançar os objetivos de aprendizagem propostos.

Moojen e França analisaram a dislexia sob o ponto de vista fonoaudiológico e psicopedagógico. Para elas, o atendimento “requer uma equipe multidisciplinar para seu diagnóstico e tratamento, bem como um trabalho de apoio com a família e a escola”. As autoras também sugerem adaptações pedagógicas na escola.

A seguir, veja algumas sugestões de adaptações pedagógicas na escola. Essas adaptações devem ocorrer em vários planos (atitudinais, pedagógicos e avaliativos). Com certeza, as possibilidades não estão esgotadas.

Essa imagem, elaborada a autora, a partir das sugestões de Ciasca, Lima e Ribeiro (in ROTTA, OHLWEILER e RIESGO, 2016), p. 172,apresenta sugestões de intervenções apresentadas em quatro quadros, que sugerem: Psicoeducação. Treinos cognitivos de: atenção, memória, processamento auditivo, visual, fonológico, ortográfico. Favorecimento dos processos de autorregulação. Modificações no ambiente com fortalecimento de redes de apoio.

Com uma visão neuropsicológica, Ciasca, Lima e Ribeiro sugerem várias intervenções, conforme imagem a seguir.

A imagem a seguir sugere várias intervenções, conforme a visão neuropsicológica de Ciasca, Lima e Ribeiro. Quanto a atitudes: Explicar a condição ao disléxico; Localizá-lo próximo ao professor; Incentivá-lo a perguntar sempre que tiver dúvidas; Oferecer materiais para leitura adequados à sua capacidade;  Salientar seus aspectos positivos nos trabalhos;  Evitar que tenha que ler em público; - Reconhecer sua maior possibilidade de perder o foco na atenção em situações de leitura; -  Não o ridicularizar. Quanto a ações pedagógicas: Ensinar a resumir informações e criar formar de anotações;  Permitir uso de recursos e equipamentos como celular, gravador, de voz, calculadora, imagens, cópia de textos. Quanto à avaliação escolar: Substituir avaliações escritas por orais; Dar tempo extra; Fornecer instruções claras e objetivas; Oferecer local tranquilo.

Saiba mais

Intervenção psicopedagógica e dificuldades de aprendizagem

No Infográfico, veja um exemplo gráfico do processo de mapeamento de dificuldades de aprendizagem e intervenção psicopedagógica.

Esse infográfico é um exemplo gráfico do processo de mapeamento de dificuldades de aprendizagem e intervenção psicopedagógica. Ele apresenta dez passos que se referem a jornada de aprendizagem do aluno que apresenta dificuldades de aprendizagem. 1-Dificuldades de aprendizagem. 2-Investigação clínica. 3-Intervenção precoce. 4-Problemas específicos de aprendizagem. 5-Fatores internos. 6-Fatores externos. 7-Diagnóstico. 8-Intervenção. 9-Remediação. 10-Aprendizagem do aluno.

Nesta segunda aula, você conheceu os transtornos específicos de aprendizagem com prejuízo na leitura, bem como os critérios diagnósticos, o código da CID, a prevalência, as áreas envolvidas na leitura e as possíveis intervenções.

Dica de leitura

Esta obra, organizada pela Dra. Jacqueline Abrisqueta-Gomez, conta com 40 colaboradores de várias áreas, entre os quais psicólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. Ela trata de diversas temáticas envolvendo a reabilitação neuropsicológica, desde aspectos teóricos até a discussão sobre a intervenção interdisciplinar em situações com comprometimento neurológico. Convido você a ampliar seus conhecimentos com esta obra, que pode ser lida a partir de qualquer capítulo, sem a necessidade de seguir a ordem.

Consulte a biblioteca

LIVRO

Reabilitação neuropsicológica: abordagem interdisciplinar e modelos conceituais na prática clínica

Referências

Acesse as referências e os créditos desta disciplina clicando no botão a seguir.

Veja aqui

Aula 3

Transtornos específicos da aprendizagem com prejuízo na expressão escrita

Nesta terceira aula da disciplina Neurociência e transtornos específicos de aprendizagem, você vai estudar o transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na escrita, com foco nos seguintes tópicos:

  • Critérios diagnósticos
  • CID
  • Prevalência
  • Dificuldades para o diagnóstico
debate debate

Ampliando o debate

Diante de queixas de dificuldades de escrita, leitura, compreensão de texto ou de matemática, surge a suspeita de um quadro de transtorno específico de aprendizagem. Para se ter certeza do diagnóstico, é importante realizar uma série de testagens, além da entrevista de anamnese. Neste vídeo, a psicóloga e neuropsicóloga Hosana Alves Gonçalves, especialista em transtornos do neurodesenvolvimento, fala sobre instrumentos padronizados e entrevistas que ela utiliza e considera fundamentais para avaliar crianças com transtornos específicos de aprendizagem. Assista ao vídeo e confira.

Hosana Alves Gonçalves

A Influenciadora

Além da entrevista de anamnese, é útil analisar pareceres feitos pela escola, o que é mais comum na educação infantil e nos anos iniciais. Esse recurso fornece a compreensão da história escolar da criança. A análise de materiais escolares, como cadernos, livros e pastas, ajuda a entender o nível de desenvolvimento da criança em relação às atividades, bem como a forma como ela se organiza diante das demandas escolares. No vídeo, além de conhecer a utilização desses recursos, você vai verificar a importância e a forma de utilização dos testes padronizados no processo avaliativo.

Para ampliar ainda mais o sobre avaliação, você pode analisar o quadro a seguir, elaborado por Hasse e Santos (2014, p. 148), com a sugestão de recursos para a avaliação neuropsicológica dos transtornos específicos de aprendizagem.

A imagem se refere a um roteiro para avaliação neuropsicológica dos transtornos específicos de aprendizagem, que abrange o domínio como: desempenho escolar, memória operacional, leitura e aritmética; o construto envolvido em cada domínio; o teste que deve ser aplicado, conforme o construto e a referência de cada teste.

Os transtornos específicos de aprendizagem com prejuízo na escrita são identificados pelos Sintomas 3 e 4 do critério de diagnóstico A do DSM-5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, seção 2, p. 2):

Interativo

Assista à videoaula para saber um pouco mais sobre o transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na expressão escrita.

A professora comenta

Transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na expressão escrita

Nesta terceira aula, você vai conhecer o transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na expressão escrita. Além disso, vai conhecer os sintomas 3 e 4 do critério de diagnóstico A do DSM-5, que identificam esse transtorno.

Na videoaula, você conferiu como identificar um transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na expressão escrita. Além disso, viu como geralmente o prejuízo na escrita se manifesta associado ao prejuízo na leitura e que pode ter várias formas de manifestação.

O CID 315.2 (F81.81) refere-se ao transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na expressão escrita, cujos sintomas são dificuldades de:

  • Precisão na ortografia
  • Precisão na gramática e na pontuação
  • Clareza ou organização da expressão escrita

Há poucos estudos de prevalência específicos da escrita isolada da leitura, porém alguns estudos chegam a 10% das crianças em idade escolar.

ícone de link ícone de link

Veja essa dica

Testes ABC

Os testes ABC para a verificação da maturidade necessária à aprendizagem da leitura e da escrita representam um marco na história da avaliação educacional brasileira. O educador Lourenço Filho desenvolveu esses testes no início da década de 1930, os quais foram utilizados nas escolas brasileiras até o início da década de 1970. Eles eram aplicados em todas as crianças que ingressavam no primeiro ano do primário, aos 7 anos, com o objetivo de organizar as turmas de forma homogênea.

De acordo com o desempenho nos testes, acreditava-se que a criança aprenderia a ler e a escrever em seis meses. Outro grupo era considerado capaz de se alfabetizar em um ano letivo, e o terceiro grupo era classificado como necessitando de auxílio extra para poder aprender a ler e a escrever.

Os testes são formados por oito provas, que verificam os seguintes índices de maturidade, considerados, à época, “necessários ao aprendizado da leitura e da escrita: 1. coordenação visual-motora; 2. resistência à inversão na cópia de figuras; 3. memorização visual; 4. coordenação auditivo-motora; 5. capacidade de prolação; 6. resistência à ecolalia; 7. memorização auditiva; 8. índice de fatigabilidade; 9. índice de atenção dirigida; 10. vocabulário e compreensão geral” (LIMA, 2007, p. 1).

Devido à sua importância histórica, vale a pena conferir. Em 2008, o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) lançou a 13ª edição do livro, que está disponível on-line.

Veja aqui

curva encerrando a sessão

Segundo Ferreres, China e Abusamra (2014, p. 113), a linguagem tem “2 milhões e meio de anos, o homo sapiens moderno adquiriu suas características anatômicas há 200 mil anos, os símbolos escritos mais antigos datam de apenas 5500 anos e a escrita fonológica (o princípio alfabético) foi inventada há somente uns 3 mil anos”.

Em comparação com a linguagem, a escrita é muito nova na história. Alguns teóricos acreditam que essa é a razão para haver tantos prejuízos específicos relacionados com a leitura e a escrita. Para acompanhar os prejuízos na escrita, é preciso primeiro entender como a escrita se desenvolve na criança. Ouça o podcast a seguir para conferir as descobertas realizadas no processo da construção da escrita.

ícone de microfone ícone de microfone

Podcast

Processo de construção da escrita

As pesquisadoras Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, baseadas na psicolinguística e na teoria de Piaget, dedicaram-se a estudar os processos de aquisição da escrita pela criança e, por meio de observação e de entrevistas, chegaram aos resultados fascinantes que você conhecerá neste podcast.

De acordo com Fletcher et al. (2009, p. 93), a avaliação dos transtornos da escrita é o domínio mais difícil de avaliar, em parte porque não há total consenso sobre tudo o que a escrita envolve. Com certeza, ela envolve a grafia, a ortografia e a produção textual. No entanto, cada um desses aspectos da escrita é, por si só, muito complexo. Uma diferenciação importante na escrita está entre os componentes transcrição e geração.


A transcrição envolve a produção de letras e a ortografia, necessárias para traduzir as ideias em um produto escrito.

A “geração traduz ideias em representações linguísticas que devem ser organizadas, armazenadas e depois recuperadas da memória” (FLETCHER et al., 2009, p. 252).

Entre os transtornos específicos da aprendizagem, há mais pesquisas sobre a leitura. Embora as pesquisas sobre a escrita tenham aumentado, elas estão muito mais relacionadas com a transcrição do que com a geração, pois a transcrição é específica da escrita. A geração envolve muitas questões relacionadas com a linguagem e o pensamento.

Os processos cognitivos básicos envolvidos na grafia são “a automaticidade na recuperação e na produção das letras do alfabeto, a codificação rápida de informações ortográficas e a velocidade dos movimentos sequenciais dos dedos” (FLETCHER et al., 2009, p. 253). Esses aspectos são treinados pelos exercícios de caligrafia. Além de memorizar os desenhos das letras, é preciso desenvolver a habilidade para fazer esses desenhos, com precisão e velocidade.

Para pensar nas diferenças entre os alfabetos e seus graus de dificuldade, veja, a seguir, a imagem de uma folha de um caderno de caligrafia chinês.

A imagem se refere Caderno de caligrafia chinês. O modelo da letra fica à esquerda da página que é dividida em 130 quadradinhos, sendo 10 colunas e 13 linhas. O modelo da letra vem impresso em negrito na coluna à esquerda. A imagem, traz em alguns quadradinhos as letras já preenchidas à caneta e em outros não, para que se possa identificar como o caderno é, originalmente, e como fica. O complexo desenho da letra já vem desenhado de forma suave em todos os quadradinhos da folha e o estudante desenha à caneta por cima.

Ortografia

É interessante acompanhar o que Fletcher et al. (2009, p. 254) dizem sobre a ortografia:

Entre as línguas, aquelas com relações mais transparentes entre a fonologia e a ortografia – como a língua portuguesa – parecem produzir transtornos menos graves para a precisão na leitura de palavras, mas os problemas com a ortografia e a fluência são mais acentuados, o que sugere que os componentes fonológicos e ortográficos da escrita (e da leitura de palavras) são dissociáveis.

É importante conhecer diferentes formas de representação escrita para compreender que algumas escritas normalmente apresentam mais dificuldades do que outras. Alguns sistemas de escrita representam os próprios objetos e ideias, ao passo que outros representam a linguagem. Por exemplo:

  • O japonês tem uma escrita silábica, pois cada sílaba é representada por um símbolo.
  • O português é uma língua alfabética, pois cada som – fonema – é representado por uma letra – grafema.

Glossário

Caligrafia: escrita à mão.

Fonema: menor unidade sonora de uma língua.

Grafema: menor unidade da escrita. Na escrita alfabética, é uma letra; na escrita ideográfica, é um ideograma.

Grafia: representação gráfica.

Ortografia: escrita correta.

Produção textual

Quanto à produção textual, “o papel das funções executivas em termos de planejar e de organizar a expressão escrita no nível da grafia e da produção textual é claro e tem tido grande influência sobre o desenvolvimento de intervenções na área da expressão escrita” (FLETCHER et al., 2009, p. 255). Para escrever, é preciso:

[...] formular a ideia; sequenciar pontos relevantes na ordem correta; garantir que o produto escrito esteja sintática e gramaticalmente correto; escrever as palavras corretamente; e expressar as palavras, as sentenças e os parágrafos de maneira legível por meio do sistema grafomotor (FLETCHER et al., 2009, p. 256).

ícone de link ícone de link

Veja essa dica

Saúde, Cultura e Muito Mais – 20ª edição

Entrevista com o professor Lucas Schenatto de Sena no programa Saúde, Cultura e Muito Mais sobre neurociências, plasticidade cerebral e aprendizagem.

Veja aqui

curva encerrando a sessão

É útil entender os diferentes métodos de alfabetização, pois eles influenciam a aprendizagem da criança.

ícone de folha com uma lupa ícone de folha com uma lupa

Infográfico

Veja, no Infográfico a seguir, as principais diferenças entre os métodos de alfabetização analítico e sintético.

A imagem apresente as principais diferenças entre métodos sintéticos e analíticos de alfabetização. Cada método realiza o ensino da leitura e escrita tomando como referência e ponto de partida uma unidade específica, sea a letra, sílaba, palavra, frase ou o texto. Para simbolizar as estruturas são utilizados dois triângulos, sendo que um está de cabeça para baixo. A estrutura do método sintético é representada pelo triângulo normal divido em cinco partes, sendo que no topo está o ensino da letra/fonema, seguida pela sílaba, e sequencialmente por palavra, frase/setença e texto. O aprendizado ocorre da parte para o todo. Já no método analítico acontece o oposto. O ensino ocorre na direção do todo para a parte. Dessa forma, a divisão no triângulo invertido se inicia pelo texto, seguindo para frase/setença, palavra, sílaba e letra/fonema sequencialmente.

Os prejuízos na escrita podem acompanhar a dislexia ou não. Segundo Fletcher et al. (2009), tanto a compreensão leitora como a produção textual têm alguns processos metacognitivos comuns entre si, como planejamento, automonitoramento, autoavaliação e automodificação. No entanto, existem muitos transtornos da infância relacionados com transtornos da expressão escrita na ausência de dislexia. As definições operacionais desse transtorno não estão tão claras. Como a escrita é muito complexa e se desenvolve posteriormente “não é de surpreender que os déficits na expressão escrita ocorram juntamente com déficit na linguagem oral, na leitura e na matemática” (FLETCHER et al., 2009, p. 251).

Nesta terceira aula, você assistiu ao segundo vídeo da neuropsicóloga Hosana Alves Gonçalves, aprofundando questões sobre a avaliação do transtorno específico de aprendizagem por meio da utilização de testes padronizados. Além disso, você estudou o transtorno de aprendizagem com prejuízo na escrita e conheceu os testes ABC, utilizados no Brasil durante muitas décadas para avaliar a maturidade para a aprendizagem da leitura e da escrita, a aprendizagem da escrita e diferentes métodos de alfabetização. Por fim, você conheceu a teoria de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky sobre o processo de construção da escrita pela criança.

Dica de leitura

Este livro, que conta, entre outros estudiosos da área, com a autoria de nossa influenciadora Hosana Alves Gonçalves, nos ensina uma parte fundamental do trabalho neuropsicológico, que é a escrita de um laudo. Não basta apenas conhecermos o que é aprender, quais são os transtornos que envolvem a aprendizagem e conhecer estratégias para ajudar as pessoas que sofrem com esses transtornos. Uma importante habilidade a desenvolver na área é saber como se comunicar com os interlocutores, sejam eles pessoas leigas, da área ou colegas de outras áreas de atuação, uma vez que o trabalho interdisciplinar é fundamental no tratamento dos transtornos específicos de aprendizagem. Esta obra ajuda a desenvolver essa habilidade de escrita do laudo neuropsicológico.

Consulte a biblioteca

LIVRO

Como escrever um laudo neuropsicológico?

Referências

Acesse as referências e os créditos desta disciplina clicando no botão a seguir.

Veja aqui

Aula 4

Transtornos específicos de aprendizagem com prejuízo na matemática

Nesta quarta e última aula da disciplina Neurociência e transtornos específicos de aprendizagem, você vai estudar o transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na matemática, com foco nos seguintes tópicos:

  • Critérios diagnósticos
  • CID
  • Prevalência
  • Dificuldades para o diagnóstico
  • Intervenção

Os transtornos específicos de aprendizagem com prejuízo na matemática são identificados pelos **Sintomas 5 e 6 do critério de diagnóstico A ** do DSM-5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, seção, p. 2):

Interativo

Agora, veja o vídeo a seguir.

A professora comenta

Transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na matemática

Nesta quarta e última aula, você vai conhecer o transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na matemática, bem como os sintomas 5 e 6 do critério de diagnóstico A do DSM-5, que identificam esse transtorno.

Assista ao vídeo para conferir como identificar esse transtorno.

Na videoaula, você conferiu como identificar o transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na matemática. Além disso, viu como, embora possa se apresentar isoladamente, o transtorno geralmente se manifesta com prejuízos na leitura ou na escrita. Por fim, você verificou que o transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na matemática é um transtorno do neurodesenvolvimento e se refere a dificuldades básicas na matemática, e não a conteúdos complexos, como as disciplinas de cálculo dos cursos de ciências exatas.

O CID 315.2 (F81.81) refere-se ao transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na matemática, cujos sintomas são dificuldades de:

  • Senso numérico
  • Memorização de fatos aritméticos
  • Precisão ou fluência de cálculo
  • Precisão no raciocínio matemático

Como visto, a expressão utilizada atualmente para se referir às dificuldades na matemática próprias ao neurodesenvolvimento é transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na matemática. Contudo, como o termo discalculia é muito utilizado e muito frequente na literatura, é importante saber o que diz o DSM-5 sobre ele, visto que é o manual que serve de base para o diagnóstico.


Discalculia é um termo alternativo usado em referência a um padrão de dificuldades caracterizado por problemas no processamento de informações numéricas, aprendizagem de fatos aritméticos e realização de cálculos precisos ou fluentes. Se o termo discalculia for usado para especificar esse padrão particular de dificuldades aritméticas, é importante também especificar quaisquer dificuldades adicionais que estejam presentes, tais como dificuldades no raciocínio matemático ou na precisão na leitura de palavras” (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014, seção 2, p. 2).

Quanto à prevalência, de acordo com Haase, Júlio-Costa e Santos (2015, p. 1), 3 a 10% das crianças em idade escolar apresentam problemas em matemática, porém apenas um terça delas são diagnosticadas com discalculia. Grande parte das dificuldades em matemática são atribuídas a outros quadros, entre os quais as dificuldades externas.

Do ponto de vista cerebral, as pesquisas mostram que as regiões em torno do sulco intraparietal, bilateralmente, são ativadas quando são realizados testes envolvendo números. Veja, na imagem ao lado, o hemisfério esquerdo do cérebro, com indicação da região ao redor do sulco intraparietal.

A imagem representa o hemisfério esquerdo do cérebro, com indicação da região ao redor do sulco intraparietal.

Segundo Bastos, há poucos estudos sobre transtornos específicos de aprendizagem com prejuízo na matemática. O autor salienta que a discalculia se refere a operações matemáticas básicas, como adição, subtração, divisão e multiplicação. Não se trata das “habilidades matemáticas abstratas envolvidas em álgebra, trigonometria ou cálculo”. Embora seja muito comum haver dificuldades nos campos mais abstratos da matemática, eles não são explicados por transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na matemática se a pessoa consegue ter um bom desenvolvimento das operações fundamentais.

Estudos do funcionamento cerebral na resolução de problemas matemáticos concluíram que existe uma “especialização hemisférica para quantificação: o hemisfério direito é responsável pela contagem até quatro e o esquerdo para quantidades maiores” (BASTOS, 2016, p. 179). Segundo o autor, ainda não há uma homogeneidade nos termos para designar os maus rendimentos em matemática, tampouco existe uma universalização dos testes para o diagnóstico. Existem várias causas para a dificuldade em matemática, entre elas o transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na matemática, conforme mostra a imagem a seguir.

A imagem apresenta as causas de baixo rendimento em matemática. Essas causas podem ser neurológicas ou não neurológicas. Se forem neurológicas, podem ser de distúrbio primário (Acalculia, Discalculia do desenvolvimento) ou de distúrbio secundário (Deficiência mental, Epilepsia, Síndrome de Turner, Fenilcetonúria tratada, Síndrome do X frágil, Síndrome fetal alcoólica, Baixo peso, TDAH, Dislexia, Disfasia, Outros). As causas não forem neurológicas podem ser referentes a fatores escolares, fatores sociais ou ansiedade para matemática.

Glossário

Fenilcetonúria: defeito congênito raro que envolve a dificuldade do fígado de realizar o metabolismo da fenilalanina. É detectada pelo teste do pezinho. O tratamento é feito por meio de dieta adequada. Se não for tratada, pode causar deficiência intelectual, entre outros quadros.

De acordo com Ribeiro, Silva e Santos (2016, p. 1), não há muita diferença na intervenção com crianças do ensino fundamental com baixo desempenho em matemática em função de questões externas em comparação com crianças com discalculia do desenvolvimento. Assim, é preciso ter domínio dos fatos fundamentais em matemática. Veja, na imagem a seguir, um esquema com esses fatos.

A imagem apresenta o domínio dos fatos fundamentais em forma de fluxograma, podendo eles serem aditivos ou multiplicativos e ambos os fatores menores do que 10. Para isso é importante que haja: - Planejamento de lições que favoreçam o desenvolvimento de estratégias específicas - Domínio dos fatos fundamentais-criança dar uma resposta rápida se recorrer à contagem (compreensão). - Diferentes abordagens para ajudar as crianças a dominar fatos fundamentais.

As características iniciais das dificuldades em matemática, tanto as decorrentes de problemas externos quanto as decorrentes dos transtornos específicos do desenvolvimento, são muito semelhantes, sendo difícil distinguir os dois tipos de causas. Ribeiro, Silva e Santos (2016, p. 1) organizaram um quadro com os tipos de dificuldades em matemática, entre os quais está a discalculia primária, que equivale ao transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na matemática. Confira, a seguir, o quadro elaborado pelos autores.

A imagem apresenta, em forma de subprocessos, que a dificuldade em matemática pode decorrer de baixo rendimento ou discalculia. A discalculia pode ser primária de domínio específico (cognitivo numérico - habilidades aritméticas e representações numéricas) ou secundária de domínio geral (cognitivo não-numérico – emocional, motor, social, transtornos comórbidos)

Segundo Fletcher et al. (2009, p. 220), há uma dificuldade maior para definir os transtornos específicos na matemática do que na leitura e na escrita. Existem várias denominações para o mesmo quadro:

  • Transtornos de cálculos e conceitos matemáticos
  • Transtornos significativos nas habilidades matemáticas
  • Transtorno da matemática
  • Transtorno específico da habilidade em aritmética

Os autores chegam a questionar se há, de fato, um “déficit específico em habilidades acadêmicas envolvendo o raciocínio matemático ou conceitos que não podem ser explicados por transtornos da leitura e da linguagem” (FLETCHER et al., 2009, p. 221).

ícone de microfone ícone de microfone

Podcast

Ensino de matemática

Nas avaliações internacionais da educação básica das quais o Brasil faz parte, é comum obtermos as últimas posições. Entre as áreas avaliadas, geralmente a situação é pior com relação à matemática. Neste podcast, você vai conferir um trecho do livro Problemas de epistemologia genética, de Jean Piaget, que descreve o quanto o ensino de matemática esbarra em concepções equivocadas sobre o processo de aprendizagem.

Vale a pena investir no conhecimento dos processos normais de aprendizagem de matemática e no conhecimento das dificuldades decorrentes de escolarização na área como forma de auxiliar o diagnóstico do transtorno específico. Também vale a pena investir no conhecimento de iniciativas que visem a sanar as dificuldades na área, como a Khan Academy.

ícone de link ícone de link

Veja essa dica

Khan Academy

Salman Khan é o criador da Khan Academy, uma plataforma on-line sem fins lucrativos que criou uma proposta revolucionária para o ensino, especialmente de matemática. Ela está aberta ao público em geral, sem custos. Ao entrar na plataforma, você encontra um menu com atividades de matemática, de ciências, de português, entre outras. Existem atividades de matemática para o ensino fundamental (separadas por ano) e para o ensino médio (separadas por conteúdo). Sugiro a exploração das atividades de matemática.

Veja aqui

curva encerrando a sessão

A seguinte estratégia de intervenção é proposta por Bastos (2016, p. 187):

Trabalhar com “números elementares de 0 a 9 (habilidade léxica), a produção de novos números (habilidade sintática), as noções de quantidade, ordem, tamanho, espaço, distância, hierarquia, cálculos com as quatro operações e o raciocínio matemático”, tudo isso primeiramente com materiais concretos. Só depois passar para eventos aritméticos não concretos. Trabalhar a percepção de figuras e formas; noção de espaço, ordem e sequência, representação mental, conceitos de números e operações aritméticas.


Uma abordagem interessante na área da matemática é o auxílio dos colegas, pois eles encontram-se em um momento mais próximo do desenvolvimento das noções e operam em um plano concreto, mais próximo do pensamento da criança.

Na imagem a seguir, confira a sugestão de uso do material dourado para auxiliar a criança no desenvolvimento das noções básicas em matemática.

A imagem apresenta um menino empilhando blocos de madeira, representando o uso do material concreto. Ao laco encontra-se o seguinte texto: Também conhecido como material de contas douradas, o material dourado foi criado pela médica e educadora Italiana Maria Montessori, Esse material é um excelente recurso didático para a aprendizagem matemática, pois ajuda a criança na compreensão do sistema de numeração decimal, como nas operações fundamentais e permite que o aluno compreenda o processo de agrupamento (vai um) e reagrupamento (desce um), nas operações de adição e subtração respectivamente. O material dourado é composto por quatro tipos de peças: cubinho, barra, placa e cubo. Onde: - O cubinho representa a unidade; - A barra representa a dezena ou dez cubinhos; - A placa representa centena, ou dez dezenas ou cem cubinhos; - O cubo representa a unidade de milhar, ou dez placas ou mil cubinhos.

Haase, Júlio-Costa e Santos (2015, p. 1) constataram que as melhores intervenções nos casos de prejuízo na matemática são as individualizadas e focadas nas estratégias individuais. Os métodos que mostraram melhores resultados são:

  1. Prática repetida
  2. Segmentação do assunto
  3. Grupos pequenos e interativos
  4. Uso de pistas nas estratégias de aprendizagem

Nesta quarta e última aula, você estudou o transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na matemática. Além disso, conheceu os critérios diagnósticos para o transtorno, o CID, a prevalência, as dificuldades para o diagnóstico e a intervenção. Por fim, você conheceu algumas discussões sobre o ensino de matemática, área na qual o Brasil obtém resultados muito baixos nas avaliações internacionais das quais participa.

Dica de leitura

Ao ler este livro, você terá a oportunidade de expandir o aprendizado adquirido nesta disciplina, pois terá acesso à descrição histórica da evolução do cérebro e do comportamento de diferentes espécies, desde invertebrados até a espécie humana.

Para ler este livro, busque o link nas leituras da disciplina, dentro do Eixo na Plataforma A.

LIVRO

A evolução do cérebro: sistema nervoso, psicologia e psicopatologia sob a perspectiva evolucionista

Nesta disciplina, você conferiu como identificar um tipo de transtorno de neurodesenvolvimento, o transtorno específico de aprendizagem, que pode se manifestar com prejuízo na leitura, na escrita ou na matemática. Além disso, você verificou como os avanços nas neurociências têm auxiliado o entendimento desse quadro e a busca de intervenções. Também conferiu como relacionar esses transtornos com as dificuldades apresentadas no contexto escolar e como pensar em estratégias para promover a aprendizagem. Por fim, você conheceu a prática na área a partir da experiência compartilhada por profissionais da área.

Referências

Acesse as referências e os créditos desta disciplina clicando no botão a seguir.

Veja aqui